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Pressentimento

Enquanto tudo em mim se desfaz das coisas suas

e os meus olhos desistem de buscar qualquer imagem

que desate lembranças da tua presença, dos dias antigos,

enquanto sigo de mãos dadas com a vida,

querendo nunca mais esquecê-la,

enquanto tudo acontece sem você,

algo dentro de mim,

não sei onde,

me diz que tudo está muito bem.

Quando sem nada dizer, resolveu partir, achei que meu mundo desabaria e que precisaria ser cruel também: ser para ti o que se tornou para mim. Mas, não. A sua partida foi o meu desabrochar! Foi necessária para eu poder florir vestida num sorriso novo. Achei que precisaria de disfarces, mas a minha nudez é que o me tem feito feliz, tanto que sorrio, boba, com menos peso a cada instante, percebendo que a espera acabou e que o momento é agora, e meu.

“Embora a seca seque fontes e rios
E os campos fiquem esturricados,
E o gado morra de sede e fome,
E as queimadas devorem os pastos
E os machados transformem florestas verdes em desertos áridos,
E os palácios estejam cheios de corruptos –
A despeito disso minha alegria continuará a florir
E farei poemas diante do Impossível.”

Bonito e verdadeiro, não é? Queria compartilhar. É uma paráfrase que Rubem Alves fez ao poema do profeta Habacuque, o qual viveu uma das épocas mais difíceis da nação Israel. Está no livro homônimo, capítulo 3, versos 17-18. É um dos menores livros da Bíblia, o capítulo 3 é uma canção que ele faz a Deus, e para os que precisam, é uma forte inspiração de esperança e fé em dias melhores.

Beijos e habacuques (abraços)!
.

Eu e você: um monte de palavras que ainda não sabemos dizer. Não desejo a felicidade em tua partida, nem quero que vá por não saber mais agir em tua presença. Também não desejo continuar com a dor quando tudo deveria ser simplesmente paz e certeza. Eu só quero ouvir sobre o que tem feito e sentido durante este tempo que não nos entendemos. Não saber é um consolo que me mata. E ainda me importo demais com o ritmo preocupado da sua respiração, ainda é bom ver você, nem que seja só isso, apesar de eu querer bem mais do que temos agora. Não me atrevo a dizer que desejo que tudo volte a ser como era, eu não desejo isso, o meu querer é coragem para admitirmos que somos, sim, parte de uma regra, porque se admitirmos, nos tornaremos exceção. E partiremos, juntos, para sempre, se quisermos.

Íntimo e suave

fee_021009sem pressa,  sem saudade,  sem vergonha.
não temos lugar, não temos nome,  nem fotos
você é minha roupa. eu sou seu endereço.
nossa viagem é o tempo
e nossa diversão é o pensamento.
enquanto viro um vício nas tuas veias,
me embriago nas tuas íris
que expressam o que não se pode dizer.
e sem que haja noite para nos dividir
acreditamos que o universo
é só para nós.

terça-feira, 22. 18h18min. Começa a primavera no Hemisfério Sul.

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Minha mãe me disse que quando eu era pequena, perguntei: “Mãe, se a senhora diz que eu sou uma flor, por que não nasci na primavera?” Uma resposta óbvia ela me deu. Mas, hoje, minha mãe ainda me chama de flor e eu ainda me pergunto por que não nasci na primavera, porque é exatamente quando sinto que fecho um ciclo para começar outro em minha vida. Não é só uma estação do ano, é minha também.

Primavera

A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, – e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, – e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, – e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, – e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida – e efêmera.

Cecília Meireles

Clique e ouça Temporada das flores, composta e interpretada por Leoni.

Vício

Eu inventei desculpas, ainda de madrugada ia pra rua, tentando ficar segura, porque ao acordar com o peso da falta, eu só podia lembrar o quarto e o quanto eu estava ávida por romance entre letras sinceras, dedos trêmulos, braços quentes e olhos que, mesmo no desastre, podiam colher tudo com felicidade. Era a vez da chuva, e ela vinha depressa, eu já sentia a ameaça de cada desejo arrebentando no meu peito, meu rosto se contorcendo em desespero. A cada novo fio de tentativa pra sair eu só voltava pra você, sua voz, tudo tão perigoso e tranqüilo. Uma caminhada de horas. Às vezes, eu pensava em nós dois no bosque que eu gosto, sentados, minha cabeça em seu peito, um relâmpago no céu revelando uma mistura desordenada de nós. Achei que precisava esconder o fato de que eu sabia que você existia e eu me empenhei tanto nisso que até cheguei a supor que você não passava de uma invenção minha. Ou nossa. Parei de imaginar as coisas futuras, sempre como um salto pra mim, e passei a sentir saudade do desejo que fomos, sem nenhuma intenção de fazer nem de precisar de sentido, chorando tudo sem tristeza. E tentei acreditar no que todos dizem ser a panacéia da humanidade: o tempo. Tentei mais uma vez, me esforçando até me esfolar, o que eu já estou cansada de saber que não posso, fingindo que a cada dia é diferente, que assim como me engano achando que decidi, também não acerto quando finjo que sei esquecer.

Parte de mim

Hoje senti sua falta, do seu jeito de se preocupar, das ligações,  da gargalhada, do seu silêncio quando eu entrava, da empolgação quando me contava histórias. Mesmo sem que nada dissesse eu entendia o que você queria e até o que pensava, o que emitia, o que seguia como se nada importasse. Hoje eu quis um ombro e palavras de um homem que só você pode ser. Sei que não posso olhar seu rosto, mas vejo o seu retrato e sorrio, grata pelo carinho, pela esperança e pelo sonho.

Em todas as noites me dê a sua benção, pai, e durma com anjos e com Deus. Fique tranquilo: eu sempre espero até amanhã. Amor e perdão.

Minha lembrança suave

Foi depressa, como quase tudo entre nós, foi pra que eu não tivesse chance de me conter, e era alguma coisa sobre quando você falava coisas que me faziam sentir como se eu nunca houvesse pertencido a este lugar, sobre a forma como eu olhava as pessoas ao meu redor querendo achar algo de você, pra que eu pudesse te deixar comum, pra eu acreditar que você não era um sonho tão grande e possível. Mas você era. E não foi.

Sem nada acrescentar ao que há havia sido dito, sem nada esclarecer, apenas declarei minhas inteções, já sabendo de antemão o resultado.

Nossa vida é curta, e nossos dias fogem
Tão rápido como o sol se vai.
E, como o vapor de um pingo de chuva,
Depois que se foi, não volta mais;
Assim quando eu ou tu nos tornarmos
Uma fábula, canção, ou sombra passageira,
Todo amor, todo querer, toda delícia
Há de jazer conosco numa noite sem fim.
Então, enquanto resta tempo, e declinamos,
Vem, minha Corinna, vamos, vamos nos apressar.

(Robert Herrick)

O amor jovem é convidado a se deleitar na primavera que se aproxima.

Ao vê-lo assim bonito

Eu me lembro de como me senti estranha quando vi você sorrindo. Sempre observo o jeito que as pessoas sorriem, e adoro quando elas fazem isso perto de mim, mas é que o seu sorriso foi díspar, maliciosamente cândido, fundo e não parecia nada com o que eu gostava. A verdade é que eu fiquei perturbada e fui de zero a cem em menos de cinco segundos. De repente, quem não me interessava nem um pouco e era até impercebível a qualquer dos meus sentidos, me pareceu ser a única pessoa que eu conseguia enxergar naquela noite de fevereiro.

Fiquei pensando em quantas vezes estivemos perto um do outro, que talvez tenhamos andado na mesma calçada, ou dançado a mesma música, mas eu nunca havia visto nem sua sombra, e isso me assustou. Limpei os pensamentos e no momento em que olhei para trás, querendo saber quem era você, te vi todo sorriso, de propósito, desta vez olhando pra mim. Sorria como se sua eu fosse há muito tempo, como se soubesse declaradamente do poder de hipnose que exercia em mim. Eu obedeci, meti os fracassos no lixo e, lentamente, fui à sua direção. Dando um passo para trás, me afastei da beira do abismo, muito decidida a ver de perto a pele do seu rosto mudar de cor, toda iluminada. Os teus cílios longos, volumosos, lindos, determinaram que eu deveria esquecer a ideia de ficar só porque o que me salvaria já estava bem ali, me causando esperança.

Esqueci a minha dor quando vi teu sorriso, me fazendo vibrar na plenitude que você me mostrou como alcançar, assim, muito rápido. Num sorriso, no primeiro, eu, desenhada nas tuas íris, tranquei as portas do inferno, me cobri debaixo das tuas asas, descansei e encontrei em teu hálito o sabor de uma alegria silenciosa que até hoje, te vendo despertar ao meu lado, assim bonito, se estende em horizontes dentro de mim.

“abaixou os olhos, enrubescendo, e, toda confusa, toda medrosa, jurou… que só a mim queria por toda a vida” (Aluísio Azevedo)

Ouça: Regina Spektor – Folding Chair

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